do not disturb

Some things are invisible to the naked eye. They occur either too quickly or too slowly to really be seen. Or they take place in the dark and our eyes are physically incapable of perceiving them. Other things are invisible, simply, because it would be inappropriate to look for too long, an invasion of privacy.

When I first set up my cameras in the bedrooms of a number of friends, it was clear that I would be imposing. I would be violating a space and time meant to be shared only with those who are very close, such as mothers or lovers. Some even refused outright to go through the experience of lying in their beds with two lenses pointing at their faces. Others, very generously, shared their dawns with the cold focus of my lenses. At the beginning, some even dreamed about the cameras and my presence yet, as the days passed, everything was forgotten and the changes that I had brought about seemed to blend into the environment.

After several nights watching over others as they slept, I noticed a curious common characteristic when I showed them some of the images from the night before. They reacted as if I were showing them themselves for the first time or, even, as if they were surprised at seeing themselves for the first time in a mirror, while I was a privileged spectator observing them.

Perhaps because of this, as I looked at my first portraits, it became very clear to me that sleeping and being awake are different ways of existing. It is practically impossible, given our conscious and watchful state, not to ‘pose’ for a photo. Even before the image appears in the photograph, our reaction in front of the camera is to ‘fabricate’ or ‘sell’ an image of ourselves, like a advertising image. This image consciousness, however imperceptible, creates social masks in all of us, which are hard to penetrate or remove. Except when we sleep…

Over a year and a half I visited more than 70 people in their homes, collecting images and dreams. The images produced by the long exposures tell the stories of those nights which, like dreams, are superimposed, in various layers, and create the impression of enigmas to be deciphered. When we open our eyes, nothing remains except impressions and reverie, fragmented images, premonitions…

Making-of:

Mais um blog de fotografia e, a cada novo blog, vai ficando mais distante aquela antiga ideia de que “uma foto vale por mil palavras”. E tudo aquilo que as fotografias não dão conta? A atmosfera, os sons, os cheiros, o entorno, a relação com os fotografados, o que se viveu antes da foto, o que mudou depois dela, etc…? Esse primeiro post gostaria de lembrar e dividir experiências e memórias de um trabalho recente que, além do resultado final, foi também muito rico em seu processo. No caso, estou falando das descobertas vividas durante os dois anos, entre testes, execução e pós-produção, do projeto “não perturbe”.

Já me foi perguntado algumas vezes quando ou porquê decidi começar a fotografar pessoas dormindo e eu continuo sem saber responder a essa pergunta. A melhor resposta que consigo dar é que talvez haja uma curiosidade voyeurística além de uma busca pelo que é invisível nos projetos que venho desenvolvendo. Quando digo invisível estou me referindo ao que nossos olhos não podem captar por questões físicas: o que se dá muito rápido ou muito devagar, ou o que se dá na escuridão, por exemplo. Ou, indo além, invisível simplesmente porque seria inapropriado olhar por muito tempo, uma invasão de privacidade.

A idéia inicial era fotografar a maior parte de uma noite de sono das pessoas, provavelmente das 00hs até às 06hs, em uma única imagem. Pra facilitar e baratear os custos pensei logo no uso de câmeras digitais mas, após uma rápida pesquisa, descobri que as câmeras mais modernas que tínhamos na época não “aconselhavam” uma exposição muito longa. Troquei uma série de emails com a Canon que me recomendou não submeter sua melhor câmera do momento, a Mark III Ds, a exposições tão longas como eu gostaria. Aparentemente, a exposição prolongada, esquentaria tanto o CCD que as imagens resultantes seriam granuladas, avermelhadas e, pra completar, o próprio ccd estaria em risco já que, por segundo, ele é escaneado de um lado a outro 4000 vezes (faça as contas pras 6 horas!). Por fim, recebi um email da canon lavando as mãos: “we do not recommend shooting exposures that are hours long because prolonged activity of the image sensor is not always good for the image sensor.”

Bem, se o problema era esse, resolvi perguntar ao oráculo “como manter a temperatura baixa em longas exposições? camera digital” e, navegando entre as centenas de respostas que o google me deu, principalmente sobre pessoas que queriam fotografar estrelas a noite, me apareceu uma muito surreal, de um cientista maluco que se esconde no Wisconsin e que se chama Dr. Greiner – “doc g” para os íntimos…

o coolerbox de dr. g

Doc G ensinava no seu site como construir um cooler para uma canon 10d que, resumindo, era como enfiar a sua câmera dentro de um isopor refrigerado por uns tubos que vinham de um tupperware cheio de ventoinhas e traquitanas, mantendo a temperatura estável durante toda noite e, consequentemente, a qualidade da foto perfeita e a integridade da câmera garantida.

Fechei os olhos e me imaginei entrando com, além das câmeras e tripés, dois coolers prateados, tupperwares e mangueiras plásticas na casa de pessoas que, na melhor das hipóteses, seriam amigos altruístas que não se importariam não só de serem fotografados em um momento de intimidade e privacidade mas, além disso,  de ter duas instalações soltando fumaça fazendo parte da decoração de seu quarto por algumas noites…

Ok, idéia descartada, adeus digital, de volta aos negativos. Bem, pra começar eu precisava de câmeras em que eu pudesse usar um intervalômetro, a única maneira de programar as fotos sem que houvesse a necessidade de eu dormir na poltrona ao lado do fotografado, o que não seria legal nem pra mim, nem pros meus melhores amigos, quanto mais pros desconhecidos que pretendia incluir no projeto. então comprei duas eos-3 usadas.

fase dos testes: eu e letícia, heróica sobrevivente a 3 mêses de cliques e fotos noturnas…

Comecei a fotografar em casa testando as exposições e a paciência da minha esposa que chegou ao limite na noite que resolvi testar uns flashes que disparavam de 15 em 15 minutos. Rapidamente desisiti e voltamos para o aconchego de luzes mais escuras e imperceptíveis, quase “não luzes”. Depois de testar algumas fontes diferentes acabei construindo uma calha de luz sob medida, uma que eu pudesse acoplar a um tripé e deixar ligada a noite toda. Essa era a única maneira de saber que, quando eu dominasse a exposição correta, conseguiria reproduzir a mesma luz em vários lugares. sim, porque na casa dos outros não daria pra fazer testes por vários mêses como fiz em casa, ou fotografaria com agilidade ou começaria a alterar demais a rotina dos outros, como vocês verão a seguir…

Três mêses depois, entre testes e anotações num caderninho, agora sim eu estava pronto, a brincadeira podia começar.

Quem topou descobriu que além das câmeras, tripés, hastes de metal, luz, etc, eu estava num momento em achava necessário ter muito controle sobre as imagens e andava pra um lado e pro outro com dois jogos de cama e edredom cinzas. Sujava um, eu levava pra lavar e usava o outro, e assim eles iam se revezando pelas camas alheias.

uma das bagunças que fiz, ainda na fase dos lençóis cinzas…

Coloquei à prova logo meus melhores amigos e, rapidamente, após algumas negativas, descobri que o buraco era mais embaixo. Era muita intimidade sendo dividida e, literalmente,  invadida. Em poucos dias, várias situações que eu não imaginara se apresentaram: brigas de casais, filhos vindo dormir com os pais e acendendo as luzes do quarto, gente que dizia que ia dormir em casa mas mudando de ideia durante a madrugada, gente preocupada pelo o que deveria ter sido uma noite calma de foto ter surpreendentemente se transformado numa noite de sexo, etc… e, pior, por verem o grande trabalho que eu estava tendo pra armar aquele circo, todos vinham me pedir desculpas do tipo “desculpa, eu briguei com meu marido ontem a noite e acendi a luz!” ou ainda “desculpa, eu conheci um cara e ele dormiu comigo!”. Não gente. quem tem que ficar constrangido aqui sou eu que estou invadindo sua privacidade. Não precisa me explicar nada mas…. posso fazer de novo?! Bem, as coisas foram se resolvendo e as fotos começaram a se acumular.

Passado um mês armando e desarmando circos, indo pra cima e pra baixo com algumas dezenas de quilos de equipamentos, o que já me renderia as primeiras sessões de fisioterapia para as costas, finalmente chegara a hora de revelar os primeiros filmes.

a estrutura de metal por cima das camas era assustadora pra quem ficava no quarto, abandonei ela no primeiro mês, a lombar agradeceu…

O negativo. lembra dele? Sim, aqueles dias mágicos em que o filme ficava dentro da câmera, você não tinha acesso a imagem instantâneamente e abria espaço para, dentro da sua imaginação, criar as mais variadas e maravilhosas imagens possíveis até que chegasse o momento revelador do filme impresso!

É, minhas expectativas não foram exatamente o que encontrei. Foram vários problemas. Primeiro vi muitas fotos veladas, frutos dos imprevistos ou esquecimentos noturnos e suas respectivas luzes acessas. depois descobri, pela primeira vez, e que veria ainda se repetir por várias vezes, que muitas pessoas não sabem onde e nem como dormem. Elas me diziam “eu durmo nesse canto” – e nas fotos elas não estavam lá, a não ser por um ombro ou pedaço do braço que se mantivera fiel a sua palavra. E, pra completar meu pior pesadelo, uma névoa esverdeada em formas onduladas parecia cobrir algumas fotos. Os negativos que eu havia importado um mês antes, especialmente para as fotos, haviam sido expostos ao raio-x. De todo aquele mês de trabalho, com muito esforço, eu conseguiria tirar dali umas poucas fotos.

uma das poucas fotos veladas pelo raio-x e salvas do primeiro mês…

uma das poucas fotos veladas pelo raio-x e salvas do primeiro mês…

Minhas costas me imploraram pra desistir. Eu prometi algumas sessões extras de fisioterapia e decidimos continuar. A conclusão era clara: não poderia tirar uma única foto por noite e correr o risco de não ter nada no dia seguinte. Nos testes em casa eu havia chegado a um resultado satisfatório porque tivera muitas semanas pra isso. Na casa dos outros precisaria ser mais ágil.

Voltamos a era digital então. mais emails trocados com a canon e 30 minutos foi o que ficou decidido que seria a maior exposição que eu faria sem que colocasse em risco a integridade da câmera. E, se ainda quissese manter a ideia inicial, poderia sobrepor as várias camadas de fotos e ter uma imagem mais parecida com a noite completa de sono.

 A outra mudança decorrente da primeira leva foi que parei de querer controlar tudo e aposentei o meu jogo de cama cinza, abrindo assim mais possibilidades pro acaso das roupas de cama, travesserios, pijamas, etc, o que, no final, veio a criar sobreposições de imagens bem interessantes.

E, assim, começou uma nova leva de fotos, que duraria pouco mais de 1 ano, com mais de 60 fotografados entre 6 mêses e 71 anos de idade, num total de mais de 100 noites de registro em 33 casas diferentes. Algumas dessas fotos podem ser vistas aqui.

juntamente com uma cama beliche de um adolescente, esse mezzanino foi um dos lugares mais difíceis de se conseguir achar bons ângulos e montar o circo…

De toda essa experiência algumas coisas me marcaram mais. Primeiro, ninguém fica indiferente a uma câmera no próprio quarto, num lugar e horário que talvez seja um dos mais sagrados, em termos de privacidade, na nossa sociedade. Não digo isso somente pelo parafernália mudando o ambiente, mas porque muitas pessoas chegaram a sonhar com a câmera, a incluí-la no enredo dos seus sonhos de inúmeras maneiras diferentes (algumas vezes até eu apareci nos sonhos!). Muito rapidamente, porém, já na segunda noite de foto, aquela estranheza inicial parecia evaporar e elas se mostravam incrivelmente adaptadas. Mas, uma das coisas que mais me surpreendeu mesmo, foi como as pessoas tem uma curiosidade e um desconhecimento de saberem como dormem. Sempre quando eu chegava no dia seguinte pra trocar as baterias e reprogramar as câmeras havia uma certa ansiedade de se conhecer dormindo e, quando eu começava a mostrar as imagens, seja pelas posições, expressões, mudanças súbitas durante a noite, etc, havia sempre uma enorme surpresa. Num caso extremo, teve até quem descobriu que o cachorro dormia junto com ela pela observação da foto! Foram momentos bem curiosos, engraçados, hoje penso até que deveria ter gravado aquelas reações. Mas a principal sensação que permanece desses encontros é que, de alguma maneira, eu apresentei aquelas pessoas a elas mesmas pela primeira vez… ou pelo menos a uma parte delas. Uma parte que ocupa algo em torno de 1/3 de nossas vidas.

Bem, as coisas poderiam ter ficado por aí, mas não, durante esse longo período tive tempo de amadurecer alguns pensamentos e inventei mais uma história pra me dar mais trabalho. É que, conforme fui vendo as fotos, entrando na casa e na vida das pessoas, ficando mais íntimo, achei que havia espaço pra mais pesquisa e comecei a deixar um caderninho preto onde, na manhã seguinte, elas escreveriam seus sonhos. Fui colecionando sonhos e, alguns mêses depois, entrei em contato de novo e retornei pra gravar o áudio das narrações, maneira que achei pra conseguir unir os sonhos com as imagens.

parte essencial do kit “não perturbe”, o caderno dos sonhos…

O resultado disso foi um vídeo, uma nova mídia para mim, misturando as diferentes fases de um processo, as fotos a uma edição que fiz de trechos das dezenas de sonhos que gravei. Ele pode ser visto aqui.

Por fim, só posso agradecer a paciência e colaboração de todos os fotografados que me permitiram levar uma ideia até o fim.

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