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Um homem filma uma núvem de gás atirada pela polícia pra dispersar os protestos na Rua Muhammed Mahmoud perto da Praça Tahrir no Cairo, Egito. (Fonte: The Guardian)

A revista Exit #45 saiu com o tema de “Novo Documentarismo”. Entre várias matérias e trabalhos interessantes uma em especial, do fotógrafo italiano Francesco Jodice, chamou mais minha atenção. Procurei o texto completo pra postar mas não achei, então aqui vai um resumo.

Falando sobre os protestos em vários países, que depois ficaram conhecidos como a “Primavera Árabe”, Francesco faz algumas considerações sobre como as barreiras levantadas pelos governos pra censurar informações e imagens foram “furadas” pelo twitter, com imagens tão pequenas e de baixa resolução, que passaram pela malha fina da censura na internet.

As pessoas improvisavam “pontes” através do twitter e conseguiam com que milhares de tweets fossem postados todos os dias e ganhassem o mundo, contando dessa maneira os acontecimentos em tempo real com um imediatismo jamais visto. Um documento oral em forma de fluxo de dados contínuos e incessantes, puro documento histórico. Uma mutação do relato nascida de uma rebelião sob um novo perfil técnico-cultural, uma renovação no gênero do documento.

Durante muito tempo ficamos acostumados a achar que um documento é um documento desde que tenha algum grau de credibilidade, algo que o certifique como documento. No caso da fotografia poderia ser o negativo ou um arquivo RAW (o negativo do digital), no de uma notícia, a sua fonte.

Mas os levantes egípicios, tunisianos, iranianos, etc, nos mostraram uma subversão do processo. Segundo Francesco, as notícias mais confiáveis vinham do twitter.

E as fotografias?

As imagens fotográficas da revolução nas praças desses lugares não chegavam somente através dos fotojornalistas mas, pela primeira vez e em grande volume, pelos testemunhos dos próprios participantes. Uma produção fotográfica com características revolucionárias.

O jornal inglês “The Guardian” fez uma galeria de fotos de celulares (em alguns casos fotogramas tirados de vídeos) que marcaram conflitos recentes. clique aqui)

As principais mudanças que ele aponta nesse novo documentarismo são:

1) O desaparecimento do dispositivo fotográfico, substituído por um telefone, que esconde dentro de si o olho indiscreto da câmera. Esse “novo” objeto se faz mais acessível a uma quantidade maior de “fotógrafos” e também à lugares onde uma verdadeira câmera fotográfica poderia ser considerada uma ameaça.

2) A natureza de post que essas imagens carregam e sua simbiose com as redes sociais, elas são pequenas e podem ser publicadas quase que em tempo real no facebook, twitter, tumblr, etc…

3) Essas imagens tornam-se menos significativas se saem dessa narrativa telefone-fotografia-rede social. Imprimir essas imagens parece incongruente com sua própria natureza.

4) A fotografia como um dispositivo bélico, incendiário, onde a finalidade não parece ser somente contar aos outros o que esta acontecendo ali, mas também convidá-los a tomar parte, sair de casa, vir para as ruas e participar dos acontecimentos…

5) Elas não desejam ganhar um prêmio, mas sim fundar as regras de um novo estado de direito. Além de documentar elas pretendem alterar a história do conflito em curso. A fotografia não esta interessada em eternizar o momento mas na urgência do momento: esse protesto documentado não existe porque apareceu numa fotografia mas porque ele foi instantaneamente compartilhado com milhares de outros ativistas, observadores que foram ativados pelo novo paradigma fotográfico. Não são dirigidas à memória, mas presentes somente em si mesmas.

6) Por fim, o desaparecimento do fotógrafo. A história da fotografia em conflitos sempre colocou, entre os dois lados beligerantes, um repórter fotográfico, teoricamente imparcial, que relatava os eventos ao mundo. Hoje, um dos dois lados oponentes documenta ao mesmo tempo que resiste, mais ainda, o ato de documentar é em si um ato bélico. O fotografo profissional, no sentido histórico, parece não ser mais necessário.

Bem, parece que aquela velha pergunta, se ao presenciar uma situação de perigo o fotógrafo deveria se ater a documentar ou tomar partido e ajudar o necessitado, hoje, parece ter uma terceira opção. Pois os “novos documentaristas”, antes de registrar o incêndio, acendem o fósforo e espalham o fogo…

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