flare

Flare_05If places create space and space is the realm of the possible, by embarking on a purely investigative experience, I encountered much more than I was looking for, and more than seemed to exist within a cinema auditorium. It is as if I found a small crack in the everyday and pulled it apart until I fitted inside it and, as I became aware of this, a new reality unfolded before me.

On one hand, by discovering the possibility of hiding myself secretly behind the screens, I could observe those who should have been the voyeurs of others’ lives immersed in the trance of their own thoughts, becoming, unwittingly, the victims of my gaze, while I became a spectator of spectators or, indeed, a voyeur of voyeurs.

On the other hand, the light of the projection, seen through the same screen, revealed to me an almost infinite universe of ‘movie stars’, snippets of film ?seen back to front, grids of bright colours which, like our fascination for the cosmos, the stars or, why not, photography itself, speak to us of both light and darkness.

It is as if, through a telescopic lens, art and physics reaffirmed their common desire to try to break down boundaries, to investigate what only imagination can see, speaking of subjects that still lack a vocabulary. The cinema, so often our collective portal to places that are unattainable, or unimaginable, became for me a portal to an entirely new kind of image, whose essence lay in the magic of the invisible becoming present in the tangible world.

So close the infinite and the infinitesimal, so close the increasingly fragile boundary between the public and the private, like two sides of the same concept, like the closing of a gigantic circle or, in the case of art, the completion of a long journey of discoveries. Ultimately, ‘it doesn’t matter the size of the lens or telescope when one end will always be the size of the human eye.

About the process:

Como tudo que parte do zero, sem nenhuma referência, cheguei ao primeiro cinema sem a menor ideia do que sairia dali.  O pensamento inicial era o mesmo do ensaio anterior Não Perturbe, onde registrei pessoas dormindo em seus quartos. Queria fotografar mais uma das bolhas de privacidade que fazem parte do nosso dia a dia, lugares onde, teoricamente, ainda não existe espaço para que sejamos observados.

Comecei tímido, com as cameras colocadas bem distantes do público que, apesar de conseguir enxergá-las, parecia ignorá-las e não se importar muito com a novidade. Os primeiros dias foram de experimentação, buscando alguma linguagem visual que parecesse minimamente interessante, aos poucos fui tomando coragem e me aproximando mais das cadeiras, cheguei a colocar as câmeras entre a terceira e quarta filas em umas sessões de tardes vazias num meio de semana, bem na cara dos poucos que se sentavam por ali, não sem antes pedir que as portas do cinema não fossem abertas enquanto eu não me sentasse disfarçado de espectador. As pessoas entravam, estranhavam as máquinas solitárias simetricamente colocadas entre as primeiras filas, mas logo se acostumavam e assistiam ao filme que, diga-se de passagem, era sobre a artista Agnès Varda, e fazia com que, em pouco mais de 15 minutos de projeção, nenhum tipo de experimentação artísitica no mundo parecesse mais estranho. Valia tudo.

no começo foi assim...

no começo foi assim…

Três dias, 12 sessões do mesmo filme e alguns diálogos decorados depois, testados vários ângulos com um ou outro resultado um pouco mais interessante, meu ânimo ganhou um novo alento quando materializou-se, ao lado da tela  de projeção, uma pequena porta quase camuflada pelo tecido da parede e pela escuridão. Pedi autorização pra entrar e me foi dito que dali era impossível conseguir alguma imagem, insisti um pouco, pedindo pra testar pelo menos uma vez e lá fui eu pra trás da tela.

Fios, andaimes, espumas anti-ruído, caixas de som de todos os tamanhos, escadas de metal levando ao topo da tela, pó, muito pó, um ou outro inseto mais desagradável, normalmente encontrado morto provavelmente graças a alguma dedetização recente, enfim, era um novo mundo que eu vinha a conhecer do lado de lá.

Não sei se você já teve a chance de se aproximar o suficiente de uma tela de cinema para observar que elas são reticuladas, cheias de pequenos buracos redondos e, apesar de achar que essa informação já se encontrava em algum lugar obscuro do meu cérebro, nunca imaginei que através daqueles furinhos eu poderia observar as pessoas do outro lado. Mas será que eles poderiam me ver ali atrás também? Na dúvida, no começo eu andava furtivamente, quase engatinhando em câmera lenta entre as ferragens. Mas, apesar da minha preocupação, rapidamente me caiu a ficha de que, se em toda a minha vida de frequentador de cinema eu nunca havia visto do meu assento aquele emaranhado de fios e equipamentos, então, ninguém poderia me ver ali. Era luz demais na cara deles e luz de menos lá atrás. Pelo sim, pelo não, passei a desfilar de preto pelos cinemas…

a primeira foto atrás das telas...

a primeira foto atrás das telas…

Ao finalmente compreender a minha invisibilidade passei um tempo comemorando em silêncio a conquista de um espaço em que, mimetizado de imagem, eu poderia ser um espectador dos espectadores ou, ainda, um voyeurs dos voyeurs, através de um ângulo, até onde eu pude pesquisar e me informar, nunca antes registrado.

De início apareceram algumas dificuldades pois a tela era muito distante do público e minhas lentes mostravam todo o ambiente, apesar do meu foco estar no “encontro” de cada um com o seu filme. Pra me aproximar, fui atrás de lentes teles que nunca havia usado antes, aquelas que você vê atrás dos gols nos jogos de futebol e, assim, comecei a chegar onde não se podia imaginar no início: retratos em close, de frente para os espectadores, em que a retícula da tela se sobrepunha aos seus rostos.

Com o tempo fui ficando mais experiente nas exposições e diafragmas que me traziam o melhor resultado e no me esgueirar como um contorcionista agachado silenciosamente entre tripés e andaimes. Comecei a tirar mais proveito do tempo que passava atrás das telas e o ensaio começou a tomar corpo. Nas mais de 100hs que passei ali atrás (cheguei a ficar 12hs seguidas entocado) fui dos simples retratos, onde as pessoas se mostravam em transe e conectadas com os filmes que estavam vendo, até pequenos achados, como adolescentes trocando mensagens de texto por celulares, pessoas dormindo profundamente, casais se pegando, etc…

entocado com a tele...

entocado com a tele…

A partir daí ficou muito claro que eu teria que tomar muito cuidado com as imagens usadas para preservar a privacidade das pessoas capturadas. Os dois grandes aliados dos espectadores na garantia do seu anonimato eram a escuridão e a tela reticulada. A escuridão porque me obrigava a realizar longas exposições de vários minutos (8, 10, 12, 15, 20, até 30 minutos…), sendo impossível, nem que seja pela respiração, que alguém se mantivesse completamente imóvel por tanto tempo, e a tela por lançar uma rede reticulada sobre o rosto de cada um, “sujando” ainda mais o resultado final. Ainda assim resolvi tomar mais precauções pra evitar qualquer reconhecimento. Primeiro evitei ao máximo usar fotos de casais, já que não havia como saber qual a relação social daquelas pessoas: amigos, namorados, casados, amantes, casais jovens demais para a ciência dos pais, etc…?! Mas, em casos excepcionais, em que uma foto me parecia importante para o conjunto da obra, apesar de haver uma mínima chance de reconhecimento, recorri ao tratamento de imagem para resguardar os personagens: alongar ou engordar as feições, aumentar ou tirar cabelo, esticar ou amendoar os olhos, mudar a cor das roupas, apagar acessórios de moda, eliminar tatuagens ou marcas de expressão, foram alguns dos recursos usados para proteger as identidades. Dessa maneira, no material final se misturam aleatoriamente documento e ficção…

documento ou ficção?

documento ou ficção?

Parando aqui, acho que já teria um material original que ia de encontro ao meu pensamento inicial. Mas……

Cada exposição durava aproximadamente 15 minutos e, por mais que eu tivesse duas câmeras pra cuidar, me sobrava muito tempo livre (leia-se: tédio), conforme as sessões iam se repetindo, se repetindo, etc…  Não havia rede social no celular que me entretesse por tanto tempo ali atrás esperando a hora de apontar a camera para a próxima vítima.

Depois de um tempo passei a levar uma terceira câmera. No começo serviu para algumas fotos de making-of, documentar o ambiente onde eu havia me metido, um ou outro detalhe, etc… Porém, em um certo momento, posicionando a camera extra exatamente no centro da tela apontada e alinhada com o projetor do filme, passei a fazer algumas fotos e filmes da própria projeção ao avesso e, para minha surpresa, as imagens obtidas apresentavam uma beleza e variedade estética aparentemente inesgotáveis.  Eram cores e formas misturadas ao reticulado tecido que, aos poucos, começaram a me lembrar aquelas fotos de estrelas e galáxias que vemos no caderno de ciência dos jornais cotidianos. Comecei a acumular, sessão após sessão, dezenas de fotos dessas tais estrelas e, em pouco tempo, já eram milhares…

para roma com amor do woody allen...

para roma com amor do woody allen…

Tentei editá-las, mas como editar milhares de fotos que parecem ser únicas, apenas diferenciadas por subjetividades sem muito critério? Por mais que me esforçasse, chegava a um ponto em que a escolha passava pela futilidade de qual cor mais me agradava. Assim, ao invés de editá-las, achei que a melhor maneira de preservar o material sem firulas era catalogando-as. Mas como?

Bem, como eu já havia mencionado, elas me lembravam estrelas, o que facilitava a minha vida na escolha de como dar sequencia ao processo: precisava consultar um astrônomo para entender como faria a catalogação das minhas “constelações”. Tentei alguns emails infrutíferos pra membros de assossiações de astronomia que nunca me responderam, até que me lembrei de uma amiga que era próxima a um físico respeitado internacionalmente e que escreve semanalmente em um jornal de São Paulo. Ela fez a ponte e ele respondeu:

“OI Marlos,

essa não é bem  a minha praia, mas estrelas estão em catálogos digitais que vão sendo sempre ampliados. Veja, por exemplo, o site da Sloan Digital Sky Survey, para estrelas e galáxias.

abs,

MG”

Agradeci muitíssimo a MG e fui atrás da sua indicação. Fuçando e lendo, resolvi usar um exemplo como referência e devida licença poética para o início da minha própria catalogação: 3C 273.

apresentando 3c 273, com a devida licença poética da nasa...

apresentando 3c 273, com a devida interpretação artística da nasa…

Sim, 3C 273, é o Quasar mais próximo da Terra, assim batizado por ter sido inscrito no terceiro (3) livro de Cambridge (C), observatório que o avistou, e ter sido a duzentéssima septagéssima terceira (273) estrela a ser vista por aquelas bandas. Sendo assim, lá fui eu: separei os cinemas, os números das salas onde os filmes haviam sido vistos, o nome do filme e o horário das sessões (acredite, eu tinha tudo anotado – já posso ser diagnosticado com toc?), a partir daí, todas as “estrelas” vistas dentro daquelas condições, passavam a fazer parte da constelação daquela sessão. Por exemplo, o já mencionado filme da Agnès Varda, Le Plages d’Agnès, visto na sessão das 15hs do Cinesesc, seria:

CS LPdA 1500

E por aí fui colecionando novas constelações entre um e outro retrato indiscreto.

dava quase pra tocar na primeira fila...

dava quase pra tocar na primeira fila…

Chegando ao fim com tantas descobertas, por algumas semanas me angustiei pensando em como e, até mesmo, se chegaria a usar o material todo como uma única obra. Como misturar os retratos, estrelas / constelações, áudios, filmes, etc…? Seria melhor dividir em trabalhos separados?

A primeira vista, sim, parecia um quebra-cabeças encaixar tudo, mesmo com o material filmado conseguindo dar uma liga aos extremos, ao unir o áudio dos filmes com as imagens das “estrelas”, além do hálibi de, no fim, a grande protagonista do ensaio, refletida na cara dos espectadores e formando as tais “estrelas”, seja a luz. Mas, olhando com mais calma, havia algo que os unia além da luz e do simples fato de todas as partes terem sido encontrados dentro de uma sala de cinema. Pensando um pouco, a arte e a astronomia tem muito em comum, a começar pela curiosidade de buscar o que num primeiro momento não está lá, de tornar visível, de materializar, aquilo que inicialmente é visto apenas pelo olho da imaginação ou, ainda, um desejo de investigar, de tentar romper fronteiras. No fim, essa curiosidade em comum que impulsiona os dois meios talvez tenha sido o dado mais significante que me levou a unir as diferentes partes que envolvem os diferentes processos das descobertas. Em ambos os campos o que se vê, quero dizer, o que chega pronto até o público é, na grande maioria das vezes, a ponta de um iceberg, fruto de todo um caminho de pesquisas, uma arqueologia de descobertas. Há processos em movimento que são quase operações de biologia planetária, orgânicos, não se sabe no que  vai dar até se observar pacientemente o lento percurso percorrido…

E, dessa maneira, de descoberta em descoberta e dando tempo ao tempo para amadurecer os diferentes estágios do processo, nasceu o trabalho que chamo de Flare. Não sou de dar nomes em línguas estrangeiras, prefiro o bom e velho português sem deslumbramentos mas, no caso dessa palavra inglesa, um amigo me alertou para os vários sentidos que pareciam conspirar a favor dela como, por exemplo, o de luz usada para sinalizar, iluminar, atrair a atenção (o que me lembra as questões de privacidade); o de algo que se alarga (como a nova percepção que se tem de uma sala de cinema a partir das descobertas feitas); o de aumento e diminuição repentinos do brilho de uma estrela (que além da relação direta com as estrelas se parece com a dinâmica das luzes nos vídeos gravados); o de luz resultante da reflexão (como a luz refletida na tela que acende o rosto dos espectadores); ou, ainda, o de efeito da luz refletida ( se referindo ao termo técnico “flare” usado tanto na fotografia quanto no cinema)

Como não achei nenhuma palavra em português que me trouxesse tantos significados pertinentes ao trabalho, fiquei com Flare. O trabalho completo pode ser visto no site www.marlosbakker.com.br/projects – Espero que goste!

Texto Luis Moraes Coelho – O Documentarista de Platão

O cinema pode ser tomado por uma construção temporária moderna análoga ao modelo de existência que Platão descreveu em A Alegoria da Caverna, há mais de dois mil e quatrocentos anos, visando nos alertar para os perigos e armadilhas da imagem e de suas crenças.  Nas salas de cinema, somos conduzidos pelos sentidos para outras instâncias mentais, transportados para realidades onde nossa individualidade se recolhe, introspectiva, contendo nossos gestos e fisionomias ao essencial. Ao ver um filme, isolados do mundo exterior, entramos em histórias que não participamos diretamente. Lá, somos animais tranquilos, sem pressentir nem temer os predadores que nos rondam. Ao mesmo tempo em que não existimos naquilo que vemos, acompanhamos conscientes tudo o que acontece, e tudo o que nos é dado a conhecer dialoga com nossos pensamentos soltos em habitat natural. Concentrados no som e imagem, deixamo-nos levar pela escuridão à nossa volta, com o semblante livre de espelhos, já que, supostamente, ninguém está vendo nosso rosto nem pretende decifrar nossas expressões. No escuro do cinema, baixamos a guarda dos semblantes, não há que se preocupar com a nossa própria imagem.

É justamente este momento de entrega que Marlos Bakker está buscando capturar. Em uma espécie de safári fotográfico, infiltrado na fenda aberta pelo pressuposto de segurança da sala escura, Bakker pretende documentar os espectadores enquanto sonham acordados, afiando a mira de sua tele-objetiva. Disfarçado de imagem, o artista descobre a mimese do predador perfeito. Posiciona-se atrás da tela grande, munido de câmera e tripé para selecionar cuidadosamente aqueles que olham diretamente para ele e não conseguem vê-lo. Sua cegueira os deixa quase indefesos.

A câmera transforma a tela de cinema em grande rede, cuja trama é lançada sobre a plateia a cada disparo. Este tipo de pesca, embora certeira e profícua, tem um ritmo lento imposto pelo escuro, inimigo mortal da fotografia, e a rede acaba por imprimir sua marca indelével sobre a pele da caça. Recolher a rede de volta leva minutos de esforço e longa exposição. As fisionomias capturadas chegam borradas aos sensores digitais, condensando o movimento que a luta durante a caçada imprimira sobre eles, modificando e protegendo seus semblantes. O pescador há que se conformar, é o que se consegue documentar de sonhos. Enfim, a intuição dos espectadores estava certa, o escuro da sala é sua proteção natural.

 Belo Horizonte, 24 de setembro de 2012 Luis Moraes Coelho é mestre em poéticas visuais pela ECA-USP e doutorando em ARTES pela EBA_UFMG.

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