sobre meu trabalho

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Se existe um denominador comum aos meus trabalhos  eu o chamaria de “encontros”. Com “encontros” aqui não quero dizer encontrar o Outro mas, sim, encontrar-se consigo mesmo, seja através de algo que nos afete, que se conecte a nós, seja através da pura introspecção, o que há de mais íntimo em nós mesmos.

Para me aproximar cautelosamente desses flagrantes de intimidade no meio da cidade, me camuflo pelo espaço urbano e, como num safári fotográfico, me torno um predador à espreita: monto armadilhas em lugares “invisíveis”, fissuras no habitat natural do cotidiano e, ali, sorrateiramente, me escondo e espero pacientemente até a captura da presa. Em São Paulo, como numa selva, somos levados de um lugar pro outro em busca de nossas necessidades, nosso sustento, nosso repouso. Mais cedo ou mais tarde, mesmo o ser mais solitário tem que se aventurar fora do seu refúgio e se expor.

Quando obtenho algum êxito nessa caçada, o que capturo são raros momentos em que, no meio da grande metrópole, somos como animais desnudos, primitivos, despidos de nossas máscaras sociais. Com a guarda baixa, indefesos, os pensamentos parecem fluír mais livremente pelo semblante de cada um, quase podemos ouvi-los, arpoá-los, aprisioná-los…

Assim, como quem volta de uma viagem, trago sempre muitas histórias. Mas a lente fotográfica, minha cúmplice narrativa, que pretende capturar (e catalogar) o mundo e os homens, é também o meu limite, o que me mantém à distância. Da sufocada existência do particular dentro da cidade massificada, o máximo que posso me apossar da vida do outro é um frame.  Ao que me escapa, sobra a imaginação…

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