Não Perturbe_

Os sonhos não m comportamento. Sempre havia de existir nos sonhos daquele menino o primitivismo do seu existir.” (Manoel de Barros)

A

lgumas coisas são invisíveis a olho nú. Elas ocorrem ou muito rápido ou muito devagar para serem vistas como realmente são ou, ainda, se passam sob a escuridão e, por questões físicas, nossos olhos não conseguem captá-las. Outras coisas são invisíveis, simplesmente, porque seria inapropriado olhar por muito tempo, uma invasão de privacidade. Ao montar as primeiras câmeras nos quartos de alguns amigos, não houve dúvida, eu iria incomodar. Violaria espaço e hora supostamente divididos somente com pessoas muito próximas, como mães ou amantes. Alguns até se negaram, compreensivamente, a passar pela experiência de deitar em suas camas com duas lentes apontadas para cara. Outros foram extremamente generosos em compartilhar suas madrugadas com a frieza focal das minhas lentes. A princípio, alguns até sonharam com as câmeras e com a minha presença mas, conforme os dias passavam, tudo era esquecido e as mudanças que eu trouxera pareciam se mimetizar ao ambiente Após algumas noites vigiando o sono dos outros, percebi uma curiosa característica em comum ao mostrá-los algumas das imagens obtidas na noite anterior. Eles reagiam como se eu os estivesse apresentando a eles mesmos pela primeira vez, ou, ainda, como se eles estivessem se surpreendendo à primeira descoberta do espelho, enquanto eu era um privilegiado espectador a observá-los. Talvez por isso, ao examinar os primeiros retratos, ficou muito claro para mim que sonhar e estar acordado são diferentes maneiras de existir. É praticamente impossível, em nosso estado de consciência e vigília, não “posarmos” para uma foto. Antes mesmo da imagem aparecer na fotografia, nossa reação ante a câmera acaba “fabricando” ou “vendendo” uma imagem de nós mesmos, como numa imagem publicitária. Essa consciência da imagem, por mais imperceptível que seja, cria máscaras sociais em todos nós, que são difíceis de se acessar e desligar. A não ser quando dormimos… Durante um ano e meio visitei mais de 60 pessoas em suas casas colecionando imagens e sonhos. As imagens resultantes das longas exposições contam as histórias daquelas noites que, assim como os sonhos, se apresentam sobrepostas, em várias camadas, e provocam a impressão de enigmas a serem decifrados. Ao abrirmos os olhos nada resta, exceto impressões e devaneios, imagens desfeitas, pressentimentos…

Já me foi perguntado algumas vezes quando ou porquê decidi começar a fotografar pessoas dormindo e eu continuo sem saber responder inteiramente a essa pergunta. A melhor resposta que consigo dar é que talvez haja uma curiosidade voyeurística além de uma busca pelo que é “invisível” nos projetos que venho desenvolvendo. Quando digo “invisível”, entre muitas aspas, estou me referindo tanto ao que nossos olhos não podem captar por questões físicas (o que se dá muito rápido ou muito devagar, ou o que se dá na escuridão) quanto ao que seria inapropriado olhar por muito tempo (uma invasão de privacidade).

Houve muita pesquisa e muitos testes para tentar achar a melhor maneira de se realizar este ensaio. Num primeiro momento, pensei em fazer uma única longa exposição de toda a noite de sono. Como exposições de muitas horas não são indicadas para câmeras digitais, passei antes pelo negativo, que precisei importar e acabou velando no Raio-x.

Primeiros testes feitos em casa usando negativos

Mas não foi por isso que desisti deles, mas sim porque a experiência me mostrou, através de vários imprevistos (pessoas que esqueciam das câmeras e acendiam as luzes na madrugada) e invasões de privacidade (brigas de casais, sexo durante a captação de imagens, etc..), que eu necessitava de um grande volume de fotos para garantir ao menos 1 imagem utilizável no dia seguinte. O transtorno de montar (e desmontar) toda a estrutura envolvida na casa das pessoas era enorme e, quando por alguma razão as fotos da noite anterior precisavam ser descartadas, os próprios fotografados invertiam os papéis e ficavam constrangidos por toda a energia e trabalho perdidos quando, na verdade, quem deveria se desculpar era eu, que estava a lidar com grande intimidade dos generosos modelos. Por isso acabei voltando ao digital que me dava a segurança de, mesmo perdendo uma ou outra exposição, não precisar descartar uma noite inteira de registros. Por fim, para evitar que os CCDs super aquecidos causassem ruídos de grão e cor irreparáveis na foto, colocando em risco até mesmo a integridade do próprio sensor, fui aconselhado pela Canon a realizar exposições de no máximo 15 minutos com posterior descanso de 15 minutos para resfriamento. Sendo assim, comprei um intervalômetro e decidi que a longa exposição de horas desejada no início do projeto poderia ser obtida ou controlada depois com várias superposições de imagens realizadas digitalmente.

Filme negativo embaçado e esverdeado por causa da exposição ao Raio-X quando importado

De toda essa experiência algumas coisas me marcaram mais. Primeiro, ninguém fica indiferente a uma câmera no próprio quarto, num lugar e horário que talvez seja um dos mais sagrados, em termos de privacidade, na nossa sociedade. Não digo isso somente pela parafernália invadindo o ambiente, mas porque muitas pessoas chegaram a sonhar com a câmera. Algumas vezes, inclusive, até eu apareci nos sonhos, como pode ser lido no caderno que eu deixava para elas registrarem as suas fantasias na manhã seguinte. Muito rapidamente, porém, já na segunda noite de foto, aquela estranheza inicial parecia se dissipar e elas se mostravam incrivelmente adaptadas. Mas, uma das coisas que mais me surpreendeu, foi como as pessoas tem uma curiosidade e um desconhecimento de saberem como dormem. Sempre quando eu chegava no dia seguinte pra trocar as baterias e reprogramar as câmeras havia uma certa ansiedade de se conhecer dormindo e, quando eu começava a mostrar as imagens, seja pelas posições, expressões, mudanças súbitas durante a noite, etc, havia sempre uma enorme surpresa. Num caso extremo, teve até quem descobriu que o cachorro dormia junto com ela através da imagem. Foram momentos bem curiosos, engraçados, hoje penso até que deveria ter gravado aquelas reações. Mas a principal sensação que permanece desses encontros é que, de alguma maneira, eu apresentei aquelas pessoas a elas mesmas pela primeira vez.

Por fim, só posso agradecer a paciência e colaboração de todos os fotografados que me permitiram levar o projeto até o fim.

A logística para as fotos: tripés, luzes e câmeras montadas nos quartos

Bem Vindo!

Desejo a você uma ótima visita e espero que desfrute e se conecte com as imagens e projetos que vem me acompanhando ao longo de uma trajetória de vida. Abs!