Cada $ É Seu_

Que mastigam a cana
Que a mastigou enquanto gente
Que mastigam a cana
Que mastigou anteriormente
As moendas do engenho
Que mastigavam antes outra gente
João Cabral de Melo Neto em “O Rio”

A

pós prestar serviços para multinacionais da tecnologia que atuam no Brasil me familiarizei com a ideologia de trabalho que rege seus ambientes, na maioria das vezes, muito distante da realidade do mercado de trabalho em si. Com a intenção de averiguar um suposto equilíbrio nas relações entre empregados e empregadores, propagado por frases como “Aja como um proprietário” e “Cada dólar é seu”, me debrucei sobre as planilhas dos relatórios anuais de crescimento de várias empresas em contraponto com os números, também em crescimento, do desemprego no nosso país. Como a natureza de dados numéricos, por si só, denota uma certa frieza e impessoalidade, na maioria das vezes incapaz de expressar a comoção do que a vida cotidiana nos comunica, para melhor ilustrar o sentimento que me causava a apuração destas contas, decidi usar uma forma de expressão popular e universal: a música. A partir de um gerador de frequência foi criada uma partitura eletrônica, onde dados entram de um lado e uma série de melodias sai do outro. Guardadas as devidas proporções e lugares de fala, pensei nos cantos de trabalho ao ouvir o resultado melancólico destas composições. Contudo, um canto contemporâneo: sem a voz, sem o ritmo do corpo e até mesmo sem o trabalhador. Um canto feito pela máquina e pela frieza do sistema. Ainda, tentando entender quem é essa pessoa idealizada por frases motivacionais tidas como princípios e valores fundamentais das empresas, criei mais uma regra visando outro resultado poético: inseri dezenas destas sentenças num contador de palavras onde, quanto mais vezes repetida uma palavra, maior sua fonte tipográfica ao esboçar um “retrato” desse trabalhador em imagem. Por fim, contrapondo as regras visando resultados poéticos descritas acima, procurei registrar, com um olhar mais humanista, poesias digitais inspiradas em palavras chave desta ideologia, tais como “metas” e “empreendedorismo”.

A minha meta
Quanto mais busco
Mais incompleta
Um oásis
Metamiragem
Coragem
Nunca desista

A minha meta
Quanto mais busco
Menos se aquieta
Um oásis
Metamiragem
Coragem
Nunca desista

A minha meta
Quanto mais busco
Mais caixa-preta
Um oásis
Metamiragem
Coragem
Nunca desi

Toda hora é expediente
Para entregas no seu lar
Mato sua fome de cliente
Te levo a qualquer lugar

Dilema que trago comigo
(Um empreendedor aplicado)
Porque quanto mais mastigo
Mais vou sendo devorado?

Além dos dentes frágeis
Que alimento com meu suor
Se esconde fome mais selvagem
Há uma boca ainda maior

Ao longo do Armazém
Onde passo em meu trajeto
Observo a rotina
Dos mais obsoletos

Eles são gente apenas
Sem nome que os distinga
Como as caixas nas esteiras
Porém uma só, e sucessiva.

Suas bocas multiplicadas
Como um “time” são descritas
Mas depois de mastigados
São cuspidos como carne apodrecida

A partir da companhia
Desta gente dos galpões
O que eu posso deixar?
Que conselho? Reflexões?

Somente a relação
De nosso comum necessitar
Só esta relação
Tecida por metas a alcançar.

Bem Vindo!

Desejo a você uma ótima visita e espero que desfrute e se conecte com as imagens e projetos que vem me acompanhando ao longo de uma trajetória de vida. Abs!