Flare – Parte 01_

“Revelar o olhar é a única transgressão (suicida, talvez) que resta quando tudo foi posto à vista. É romper com a passividade cega de ser visto para poder voltar a ver. “ – Bernardo Carvalho “Fome de Ver” em ensaio para a Revista ZUM/IMS

O

cinema pode ser tomado por uma construção temporária moderna análoga ao modelo de existência que Platão descreveu em A Alegoria da Caverna, há mais de dois mil e quatrocentos anos, visando nos alertar para os perigos e armadilhas da imagem e de suas crenças. Nas salas de cinema, somos conduzidos pelos sentidos para outras instâncias mentais, transportados para realidades onde nossa individualidade se recolhe, introspectiva, contendo nossos gestos e fisionomias ao essencial. Ao ver um filme, isolados do mundo exterior, entramos em histórias que não participamos diretamente. Lá, somos animais tranquilos, sem pressentir nem temer os predadores que nos rondam. Ao mesmo tempo em que não existimos naquilo que vemos, acompanhamos conscientes tudo o que acontece, e tudo o que nos é dado a conhecer dialoga com nossos pensamentos soltos em habitat natural. Concentrados no som e imagem, deixamo-nos levar pela escuridão à nossa volta, com o semblante livre de espelhos, já que, supostamente, ninguém está vendo nosso rosto nem pretende decifrar nossas expressões. No escuro do cinema, baixamos a guarda dos semblantes, não há que se preocupar com a nossa própria imagem. É justamente este momento de entrega que Marlos Bakker está buscando capturar. Em uma espécie de safári fotográfico, infiltrado na fenda aberta pelo pressuposto de segurança da sala escura, Bakker pretende documentar os espectadores enquanto sonham acordados, afiando a mira de sua tele-objetiva. Disfarçado de imagem, o artista descobre a mimese do predador perfeito. Posiciona-se atrás da tela grande, munido de câmera e tripé para selecionar cuidadosamente aqueles que olham diretamente para ele e não conseguem vê-lo. Sua cegueira os deixa quase indefesos. A câmera transforma a tela de cinema em grande rede, cuja trama é lançada sobre a plateia a cada disparo. Este tipo de pesca, embora certeira e profícua, tem um ritmo lento imposto pelo escuro, inimigo mortal da fotografia, e a rede acaba por imprimir sua marca indelével sobre a pele da caça. Recolher a rede de volta leva minutos de esforço e longa exposição. As fisionomias capturadas chegam borradas aos sensores digitais, condensando o movimento que a luta durante a caçada imprimira sobre eles, modificando e protegendo seus semblantes. O pescador há que se conformar, é o que se consegue documentar de sonhos. Enfim, a intuição dos espectadores estava certa, o escuro da sala é sua proteção natural. O Documentarista de Platão - Luís Moraes Coelho - Belo Horizonte, 24 de Setembro de 2012 - Luis Moraes Coelho é Mestre em Poéticas Visuais pela ECA (USP) e Doutor em artes pela EBA (UFMG).

Cheguei ao primeiro cinema sem a menor ideia do que sairia dali.  O pensamento inicial era o mesmo do ensaio anterior Não Perturbe, onde registrei pessoas dormindo em seus quartos. Queria fotografar mais uma das bolhas de privacidade que fazem parte do nosso dia a dia, lugares onde, teoricamente, não existe espaço para que sejamos observados.

Comecei tímido, com as cameras colocadas bem distantes do público que, apesar de conseguir enxergá-las, parecia ignorá-las e não se importar muito com a novidade. Os primeiros dias foram de experimentação, buscando alguma linguagem visual que parecesse minimamente interessante, aos poucos fui tomando coragem e me aproximando mais das cadeiras, cheguei a colocar as câmeras entre a terceira e quarta filas em umas sessões de tardes vazias num meio de semana, bem na cara dos poucos que se sentavam por ali, não sem antes pedir que as portas do cinema não fossem abertas enquanto eu não me sentava disfarçado de espectador, deixando as cameras programadas pra fazer o seu serviço automaticamente. As pessoas entravam, estranhavam as máquinas solitárias simetricamente colocadas entre as primeiras filas, mas logo se acostumavam e assistiam ao filme que, diga-se de passagem, era sobre a artista Agnès Varda, e fazia com que, em pouco mais de 15 minutos de projeção, nenhum tipo de experimentação artísitica no mundo parecesse mais estranho. Valia tudo.

Três dias, 12 sessões do mesmo filme e alguns diálogos decorados depois, meu ânimo ganhou um novo alento quando um funcionário do cinema entrou por uma porta ao lado da tela de projeção, quase camuflada pelo tecido da parede e pela escuridão, e desapareceu atrás das telas. Pedi autorização pra entrar e me foi dito que ali não havia nada para mim. Insisti um pouco, pedindo pra testar pelo menos uma vez e lá fui eu pra trás da tela.

Fios, andaimes, espumas anti-ruído, caixas de som de todos os tamanhos, escadas de metal levando ao topo da tela, pó, muito pó, um ou outro inseto mais desagradável, normalmente encontrado morto provavelmente graças a alguma dedetização recente, enfim, não parecia promissor mas minha curiosidade por aquele lugar inusitado persistiu.

Não sei se você já teve a chance de se aproximar o suficiente de uma tela de cinema para observar que elas são reticuladas, cheias de pequenos furinhos redondos e, apesar de achar que essa informação já se encontrava em algum lugar do meu subconsciente, nunca imaginei que através daqueles furinhos eu poderia observar as pessoas do outro lado. Mas será que eles poderiam me ver ali atrás também? Na dúvida, no começo eu andava furtivamente, quase engatinhando em câmera lenta entre as ferragens. Mas, apesar da minha preocupação, rapidamente me caiu a ficha de que, se em toda a minha vida de frequentador de cinema eu nunca havia visto do meu assento aquele emaranhado de fios e equipamentos, então, ninguém poderia me ver ali. Era luz demais na cara deles e luz de menos lá atrás. Pelo sim, pelo não, passei a vir todo dia vestido de preto.

Ao finalmente compreender a minha camuflagem passei um tempo comemorando em silêncio a conquista de um espaço em que, mimetizado de imagem, eu poderia ser um espectador dos espectadores ou, ainda, um voyeurs dos voyeurs, através de um ângulo, até onde eu pude pesquisar e me informar, nunca antes registrado.

De início apareceram algumas dificuldades pois a tela era muito distante do público e minhas lentes mostravam todo o ambiente. Pra me aproximar, fui atrás de lentes teles que nunca havia usado antes, aquelas que você vê atrás dos gols nos jogos de futebol e, assim, comecei a chegar onde não se podia imaginar no início: retratos em close, de frente para os espectadores, em que a retícula da tela se sobrepunha aos seus rostos.

Com o tempo fui ficando mais experiente nas exposições fotográficas que me traziam o melhor resultado e no me esgueirar como um contorcionista agachado silenciosamente entre tripés e andaimes. Comecei a tirar mais proveito do tempo que passava atrás das telas e o ensaio começou a tomar corpo. Nas mais de 100hs que passei ali atrás (cheguei a ficar 12hs seguidas entocado) fui dos simples retratos, onde as pessoas se mostravam em transe e conectadas com os filmes que estavam vendo, até pequenos achados, como adolescentes trocando mensagens de texto por celulares, pessoas dormindo profundamente, casais com beijos apaixonados, etc…

A partir daí ficou muito claro que eu teria que tomar muito cuidado com as imagens usadas para preservar a privacidade das pessoas capturadas. Os dois grandes aliados dos espectadores no anonimato eram a escuridão e a tela. A escuridão porque me obrigava a realizar longas exposições de vários minutos (8, 10, 12, 15, 20, até 30 minutos…), sendo impossível, nem que seja pela respiração, que alguém se mantivesse completamente imóvel. E a tela por lançar uma rede reticulada sobre o rosto de cada um. Ainda assim resolvi tomar mais precauções pra evitar qualquer reconhecimento. Primeiro evitei ao máximo usar fotos de casais, já que não havia como saber qual a relação social daquelas pessoas: casados, namorados jovens demais para a ciência dos pais, ou simplesmente  amantes?! Mas, em casos excepcionais, em que uma foto me parecia importante para o conjunto da obra, apesar de haver uma mínima chance de reconhecimento, recorri ao tratamento de imagem para resguardar os personagens: alongar ou engordar as feições, aumentar ou tirar cabelo, esticar ou amendoar os olhos, mudar a cor das roupas, apagar acessórios de moda, eliminar tatuagens ou marcas de expressão, foram alguns dos recursos usados para proteger as identidades. Dessa maneira, no material final se misturam aleatoriamente documento e ficção…

Já estava bem satisfeito com o resultado que eu estava obtendo, quando… Flare – Parte 02

Bem Vindo!

Desejo a você uma ótima visita e espero que desfrute e se conecte com as imagens e projetos que vem me acompanhando ao longo de uma trajetória de vida. Abs!